“Estudos mostram que as recentes inundações em Bangladesh tiveram 68% maior probabilidade de ocorrer por conta das mudanças climáticas”, diz Nick Watts, consultor da OMS
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Se nada for feito a respeito das mudanças climáticas já observadas no entorno do planeta, os últimos 50 anos de avanços na saúde pública estarão seriamente comprometidos — e a população mais pobre será inevitavelmente a mais afetada. É este o ultimato de Nick Watts, médico especialista em Políticas Públicas de Saúde pela University College, de Londres, e consultor da OMS (Organização Mundial da Saúde) para a Convenção da Organização das Nações Unidas sobre mudança do clima. 

Watts esteve em São Paulo na última terça-feira (10) para uma palestra na 3ª Conferência Latino-Americana da Rede Global Hospitais Verdes e Saudáveis. Em seu pronunciamento, o especialista ponderou que a forma como a medicina vai responder a esta ameaça de regresso pode ser a grande oportunidade do século na área de saúde.

— Temos uma chance única, neste momento, de repensar nossa sociedade, nossa saúde, a forma como construímos nossas cidades e nos reconectamos com o meio ambiente. Desde 1990, vemos as temperaturas subirem a níveis sem precedentes na história e isso faz crescerem as secas, as enchentes, as tempestades e os furacões. A população mais afetada já totaliza 3,6 milhões de pessoas que vivem em áreas de risco atualmente.

Temos uma chance única de repensar nossa sociedade, nossa saúde e a forma como nos reconectamos com o meio ambiente

Nick Watts, médico e consultor da OMS para a mudança do clima

Segundo Watts, o mundo passou da fase em que apenas presumia os danos causados pelas mudanças climáticas para a etapa em que assiste aos resultados delas diariamente. “Estudos mostram que as recentes inundações em Bangladesh, por exemplo, tiveram 68% maior probabilidade de ocorrer por conta do aquecimento global”, aponta. Para o consultor da OMS, as consequências são o comprometimento de direitos básicos, como o acesso à comida e à saúde.

— Hoje, quando um país sofre com a seca e deixa de exportar vegetais e outros alimentos, os preços desses produtos sobem no mercado local. Quem sofre com a fome é a população mais pobre, que não tem como pagar pela comida ou mesmo cultivá-la. Em menos de 100 anos, pelo menos 9 milhões de crianças com menos de 5 anos na África subsaariana sofrerão com a desnutrição se nada for feito a respeito do clima. É um contingente de pessoas que a medicina não tem capacidade para atender, por mais bem preparada que esteja.

Nick Watts é consultor da OMS e especialista em Políticas Públicas de Saúde

Nick Watts é consultor da OMS e especialista em Políticas Públicas de Saúde
Reprodução/redes sociais

O especialista acredita que uma maior conscientização a respeito do tema depende da própria medicina — que deve não só debater o assunto mais abertamente como servir de exemplo para outros setores, diminuindo as emissões de gases poluentes em hospitais e organizações de saúde, adotando fontes de energias renováveis e fazendo o uso consciente da água e dos alimentos. Em entrevista exclusiva ao R7, Nick Watts ainda abordou a importância de engajar a população em relação ao tema e os males causados pela poluição — diretamente potencializada pelos aumentos das temperaturas. 

Pelo menos 6,5 milhões de pessoas morrem anualmente por doenças respiratórias e outras enfermidades decorrentes da poluição

R7: Por que ainda é tão difícil conscientizar e engajar as pessoas a respeito dos danos causados pelas mudanças climáticas e pela poluição?

Nick Watts: Por muito tempo, questões relacionadas à poluição e às mudanças climáticas foram consideradas essencialmente ambientais. E mesmo que eu e você entendamos, de alguma forma, que isso afeta nossa saúde, quando um ambientalista fala, geralmente nós abstraímos, colocamos em uma caixa, jogamos fora, porque não parece algo que mereça preocupação. Existe uma importância fundamental em mudar esse entendimento e encarar a questão como um desafio de saúde pública. No mundo, pelo menos 6,5 milhões de pessoas morrem anualmente por doenças respiratórias e outras enfermidades decorrentes da poluição. Ter médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde falando sobre o tema e respondendo aos danos causados pela poluição é fundamental para que as pessoas se envolvam mais.

Entre fatores como sedentarismo, tabagismo e má alimentação, viver em uma cidade poluída como São Paulo também contribui diretamente para os AVCs e ataques cardíacos

R7: Há grandes cidades como São Paulo que ainda não adotaram as diretrizes e padrões de qualidade do ar propostos pela Organização Mundial da Saúde. Quais são os riscos disso e quão perigoso é este tipo de postura para a população?

NW: A primeira coisa a se dizer é que São Paulo não está sozinha. Algo entre 73% e 87% das cidades ao redor do mundo não seguem as recomendações da OMS para o controle de poluentes na atmosfera. É um índice muito alto. No Reino Unido, aproximadamente 29 cidades não seguem. Uma das razões pelas quais isso acontece é que os padrões da OMS são, de fato, difíceis de serem atingidos. E eles não foram estabelecidos levando em conta a facilidade para serem seguidos ou implementados pelos governos. Eles foram estabelecidos com base no que a OMS acredita ser seguro para os pulmões das crianças, para evitar o desenvolvimento das doenças cardiovasculares, para evitar acidentes vasculares cerebrais nos idosos, para combater doenças pulmonares crônicas em pessoas como você e eu. Os riscos são profundos. Aproximadamente um terço das consequências da poluição para a saúde são enfermidades como câncer de pulmão e outras doenças crônicas. Mas dois terços são AVCs e ataques cardíacos. E as pessoas não entendem que entre fatores como sedentarismo, obesidade, alcoolismo, tabagismo e má alimentação, viver em uma cidade como São Paulo — onde os índices de poluição do ar não são os melhores — também contribui diretamente para os AVCs e ataques cardíacos. Desta forma, não seria exagero dizer que a poluição é um risco silencioso.

O que preocupa em relação à poluição são as pessoas que têm menos condições de evitar os danos causados por ela, que não têm opção senão viver nas áreas mais poluídas de cidades como São Paulo

R7: Pode-se dizer que a população mais afetada pela poluição, do ponto de vista de saúde, é a população pobre?

NW: No caso da poluição do ar, o que sabemos é que se as pessoas tivessem meios para viver em um local limpo, e ter acesso a um parque ou mesmo à praia, ou não morar perto de uma avenida movimentada e cheia de carros, elas fariam isso. Mas acontece que só a população mais abastada tem condições para morar nesses locais. O que preocupa em relação à poluição são as pessoas que têm menos condições de evitar os danos causados por ela, que não têm opção senão viver nas áreas mais poluídas de cidades como São Paulo. Isso traz um ciclo vicioso, porque elas já sofrem no dia a dia com doenças pulmonares, com dificuldade para respirar, e elas acabam gastando mais com saúde e com remédios. Isso só agrava as desigualdades sociais.

R7: O mesmo vale para a população mais afetada pelas mudanças climáticas?

NW: Neste caso, a população afetada também é a mais pobre, mas por razões um pouco diferentes. A questão a respeito das mudanças climáticas é que elas acontecem em todo o mundo, não há ninguém imune. Mas há diferenças entre os países e as formas como eles respondem às consequências trazidas pelos desastres naturais. Há países como a Austrália e como a Inglaterra que têm sistemas de saúde universais prontos para atender a população quando uma cidade é atingida seis ou sete vezes por uma catástrofe ou por uma epidemia transmitida por um mosquito. Mas muitos países subdesenvolvidos não têm essas instituições. E quando isso acontece, as catástrofes trazem consequências piores — e é aí que mora o problema.

É possível evitar 800 mil mortes prematuras causadas pela poluição trocando a queima do carvão por energia solar ou eólica

R7: Na palestra, você comentou que dois terços dos investimentos em energia limpa retornam, de alguma forma, para os sistemas de saúde públicos. Há outros exemplos práticos de como a sustentabilidade pode andar junto com o desenvolvimento econômico da sociedade?

NW: Não é preciso olhar muito longe para entender isso. O que eu estava falando era sobre a energia elétrica gerada pela queima do carvão. Você pode evitar 800 mil mortes prematuras causadas pela poluição trocando a queima do carvão por energia solar ou eólica. O custo-benefício delas é maior. Quando falamos sobre atividade física, os exemplos também aparecem. Eu e você sabemos que precisamos nos exercitar porque os médicos nos dizem isso, eles falam o tempo todo — a atividade física evita a obesidade, os riscos de AVC e de ataque cardíaco, etc. A boa parte é que, se você andar de bicicleta ou caminhar até os lugares onde precisa chegar sempre que possível, você contribui para a diminuição da emissão de gases do efeito estufa pelo setor de transportes. E o setor de transportes é responsável pela emissão de 18% dos gases do efeito estufa no mundo. O Reino Unido se comprometeu a acabar com a queima de carvão até 2022 e lançar 80% menos gases do efeito estufa em relação ao que lança atualmente até 2050 — e já economizou pelo menos 30 milhões de libras (aproximadamente 125 milhões de reais) com isso. Esses exemplos estão em todos os lugares, o tempo todo. E os benefícios da implantação desses meios sustentáveis são instantâneos.

Fonte: R7